Uma crémaillère é um gancho de ferro dentado, fixo no interior de uma lareira, concebido para elevar e baixar uma panela sobre uma fogueira: mais perto das chamas para uma fervura forte, mais afastado para uma cozedura lenta. Deu o nome a toda uma forma de assinalar uma casa nova, que nada tinha que ver com velas ou almofadas e tudo que ver com a primeira refeição cozinhada numa divisão.
O gancho que deu nome à festa
Na França medieval, construir uma casa raramente era uma tarefa solitária. Vizinhos, família e quem pudesse ser dispensado juntavam-se para erguer as paredes e colocar o telhado, e a última tarefa, depois de a própria chaminé estar montada, era instalar a crémaillère: uma barra com uma série de entalhes ou um pequeno mecanismo de cremalheira, pendurada no interior da conduta, que permitia a quem cozinhava escolher exatamente a distância da panela em relação à chama. Só depois de ser pendurada era possível preparar a primeira refeição, e só então havia motivo para reunir as pessoas que tinham construído a casa e alimentá-las nela. Os franceses ainda chamam a uma festa de inauguração de casa «pendre la crémaillère», literalmente pendurar o gancho da panela, muito depois de a maioria das cozinhas ter deixado de precisar de um.
O presente que importava nesse dia nunca era decorativo. Era aquilo de que o fogo precisava antes de qualquer outra coisa poder acontecer na casa, escolhido pelo que faria e não pela forma como ficaria à espera de ser usado.
Pão que se come, sal que se usa
Os lares das tradições eslava, judaica e alemã há muito que dão as boas-vindas a uma casa nova com pão e sal, oferecidos em conjunto e não separadamente. O pão representava uma casa onde nunca faltaria comida; o sal, uma vida que manteria o seu sabor e, em algumas versões, também proteção. Na Bulgária, esta receção ainda tem o seu próprio nome, hlyab i sol, e é oferecida aos convidados em geral, não apenas a uma família que esteja a mudar-se. O que fazia com que funcionasse como presente nunca era apenas o simbolismo: o pão era partido e comido nesse dia, o sal usado na primeira refeição, e não colocado num parapeito para ser admirado.
O costume grego oferece uma versão mais discreta da mesma ideia: uma romã, colocada sob ou perto do altar doméstico como desejo de abundância e boa sorte, com as suas sementes a representar a fartura, em vez de servirem de decoração para a lareira. Em contrapartida, nos séculos XVII e XVIII, um presente de inauguração diferente tornou-se popular em algumas regiões da Europa e da América colonial, por uma razão quase oposta. O ananás, suficientemente raro e caro para que algumas famílias o alugassem por uma noite em vez de o comprarem, era exposto para ser visto e não cortado: um elemento teatral para os convidados, não alimento para a casa. O pão, o sal e a romã destinavam-se a desaparecer na vida quotidiana. O ananás destinava-se a ser contemplado. Apenas uma destas ideias se manteve como costume vivo.
Leite num fogão novo
Em muitos lares hindus, a cerimónia de inauguração conhecida como Griha Pravesh, «entrada na casa», assinala o dia em que uma família começa a viver numa casa nova. As práticas variam consoante as comunidades e as regiões, mas há um elemento que surge com frequência suficiente para merecer ser conhecido por si só: uma panela de leite, colocada a ferver no fogão novo até subir e transbordar, interpretada como sinal de que o lar terá mais do que precisa, em vez de apenas o suficiente. Algumas famílias mantêm este momento como algo privado, sem convidados; outras integram-no numa cerimónia maior. As descrições do costume divergem nos pequenos pormenores — uma panela diferente, um fogão diferente —, mas concordam na mesma atenção delicada: uma subida que se deixa acontecer, em vez de ser provocada mexendo o leite.
Muitos desses mesmos lares reservam pouco depois um pequeno canto para a devoção diária, frequentemente antes de o resto da casa ter encontrado a sua forma definitiva: provisório e tranquilo, surgindo antes de o canto ter decidido o que mais quer acolher.
O que uma pessoa faz realmente primeiro
Nenhum destes costumes perguntava de que precisava uma casa nova em geral. Cada um perguntava o que aconteceria primeiro nela e oferecia um presente criado para esse momento exato: o gancho para o fogo, o pão para a mesa, o leite para o fogão. Hoje, a maioria dos presentes de inauguração é escolhida a partir de uma lista ou comprada a caminho da festa, mais por uma ligeira obrigação social do que por qualquer reflexão sobre a própria casa. Um presente escolhido com um pouco mais de atenção ainda pode fazer a mesma pergunta a que a crémaillère respondia, apenas traduzida: não qual a categoria de objeto adequada para uma inauguração — vela, manta, tábua, aparelho —, mas qual será o primeiro gesto que esta pessoa fará nesta divisão específica e se o presente pode ser aquilo com que o fará.
Talvez seja a primeira noite em que se senta sozinho nas divisões novas, com as luzes baixas, querendo algo pequeno para assinalar a hora: uma vela de cera de soja para essa primeira noite tranquila cumpre esse propósito sem exigir muito em troca. Talvez seja a primeira prateleira que fica vazia durante uma semana, porque nada a reivindicou ainda, até que um conjunto de pequenas figuras de elefantes para uma prateleira nova lhe dá uma razão para deixar de estar vazia. Talvez não seja nenhuma destas coisas, e a resposta honesta seja uma máquina de café, uma planta à qual já deu um nome ou nada do que a SHAMTAM vende. O objeto importa menos do que o gesto para o qual foi escolhido.
O gancho, não a prateleira
Nada disto exige um presente maior ou mais caro. Exige uma pergunta mais pequena, feita antes de escolher o papel de embrulho: o que fará realmente esta pessoa, primeiro, nesta divisão? Uma crémaillère nunca teve de responder duas vezes a essa pergunta. Era pendurada uma vez, porque o fogo precisava de um gancho, e usada todos os dias depois disso, porque a casa precisava de ser alimentada. Um presente de inauguração que consiga reproduzir, ainda que em pequena medida, essa mesma lógica continuará a ser manuseado, a ganhar marcas de uso ou a ser aceso muito depois de o cartão que o acompanhava ter sido reciclado.





